Das Gnü 2009

Depois de um ano de transformações, umas calculadas, outras imprevistas e outras ainda  desnecessárias, ano em que não me consegui obrigar a despejar as parvoíces costumeiras neste  blog no ritmo em que outrora o fazia, eis que chega um novo ano. Dois mil e nove.  Planeio recuperar este último ano de 2008 em que quase não publiquei nada,  por resumir agora, em 2009, o que se passou na minha bela vida de gnü.

De repente lembrei-me, tal como já acontece há uns nove anos por volta desta altura, da expressão que usava com tanto carinho, ouvia com tanto prazer, um verdadeiro portento de sabedoria popular :

“Isso agora, só lá para o ano dois mil.”

Uma expressão que não raro era usada para descrever uma situação de precariedade, para expôr situações políticas ou sociais, problemas a ser resolvidos em geral. Um belíssimo dito temperado em medidas desiguais de pessímismo em pó e uma profunda esperança sem cafeína, ambos típicos do povo português.

Claro que o cenário era bem diferente. O mundo era bem diferente, creio. Era Averell Dalton quem governava, o país encontrava-se em crise, apertavam-se os cintos e eu era um adolescente muuito pouco importado com isso. Interessava-me bastante mais o desgrenhanço de cabelos a la Robert Smith, blusões de cabedal a la depeche mode, obcecava com o fenómeno estranhíssimo do arrastamento de luz multi colorida que os brilhos metálicos, de saxofones por exemplo, provocavam  a qualquer movimento, na imagem de qualquer televisão. Mantinha também um interesse descontrolado mas saudável pela Julie Christie no belo filme “Doctor Zhivago”. Mas zhivago… perdão, divago.

Era muitissimo aliviante usar essa expressão que a que me refiro, pela distancia que esse ano tinha, pela distancia intransponível que criava entre um problema e a sua solução, num tom que denotava um belo e revoltado  “está tudo mal”. Presumo que muitos se lembrem dessa expressão com o mesmo carinho com que eu e que desde o fim de 1999 também sintam que se instalou um vazio. Uma pequena mágoa por termos sido privados do uso de tão bela frase, pelo menos com sentido e não por ser tão deliciosamente parva.

Entrementes, dei-me conta de uma coisa ainda mais estranha. Tirando uma ou outra coisa, pouco mudou. Continuo a ver o Averell Dalton à frente do país, os cintos apertam-se, a  crise é profunda até mai não  e continuo completamente alheio ou interessado em tudo menos isso.

Parece-me que a diferença mais importante entre esse periodo e este é que deixou de se dizer e muito bem, “ah, isso agora, só la para o ano dois mil”. Assim, contra toda a razão, fico com saudades dos anos oitenta. É  triste, não é?.

Ah, não. É parvo.

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